A legitimidade no entre-mundos


A legitimidade no entre-mundos: entre o pluralismo e o exclusivismo religioso



Rafael Muller, 08 set. 2021


Em West of Cabul, Esat of New York, acompanhamos Tamin Ansary, um afegão-americano, em um relato pessoal a respeito das resultantes de um e-mail escrito em desabafo pelo sentimento lhe gerado a ele-Tamin quando do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 às torres gêmeas em Nova Iorque. Associado a esse relato, uma série de imagens, fatos e retrospectivas intervém no texto, elementos estes objetos mais diretos de análise do presente texto.

Em linhas gerais, descreve o narrador-personagem o sentimento agonizante de ser afegão-americano nos Estados Unidos após o atentado terrorista, quando todos os afegãos passaram a ser reconhecidos como terroristas. Tomado pela angústia, escreveu um e-mail em que declarou o Talibã, responsáveis identificados pelo atentado, como "CULTO de PSICÓTICOS IGNORANTES", adicionando que "Quando você pensar em BIN LADEN, pense em HITLER".

O e-mail, que deveria ter por destinatário alguns poucos amigos, fora replicado amplamente, tomando proporções inimagináveis até então pelo narrador-personagem. Na análise que faz desse processo de escalonamento e alavancagem do alcance de seu e-mail, resgata memórias pessoais da adolescência no Afeganistão, das relações familiares no entre-lugar entre Estados Unidos e Afeganistão, dentre outras.

Uma concepção do narrador-personagem, em especial, chama à atenção: a afirmação claramente dualista-exclusivista de que "A mente não pode abarcar os dois [sistemas] como legítimos", quando tratando de sua formação individual enquanto afegão-americano, tornando-o um sujeito hifenizado entre os dois sistemas culturais. Em seu testemunho, afirma claramente ter selecionado o ethos americano como legítimo, passando a considerar o modo de vida afegão como uma farsa.

Apesar disso, em que pese as críticas ao real funcionamento social, o liberalismo ocidental tem por base o pluralismo religioso, de modo que diferentes sistemas [poderiam] conviver entre si. O exclusivismo religioso entra em linha de choque e debate em especial nos sistemas islâmicos, judaicos ortodoxos e cristão ortodoxos.

Desse modo, considerar a possibilidade exclusivista de a mente abarcar apenas um sistema como legítimo seria uma marca provável de assimilação de uma cultura potencialmente afegã como a legítima. Diz, contraditoriamente, em seu testemunho, que adotara o ethos americano como legítimo, ao que o pluralismo [poderia] passar a ser considerado e, portanto, a aceitação de mais de um sistema como legítimo.

Tal contradição interna de pensamento-ação, entretanto, não é de todo improdutiva, como hão de pensar alguns críticos de sistemas de pensamento dialéticos, que reconhecem as contradições como inerentes a todos os sistemas. Ao assimilar o pluralismo como legítimo e o exclusivismo como sistema legitimador, geram-se: a) uma primeira contradição, generalista, que tem como síntese a legitimação dos sistemas exclusivistas todos de modo plural; b) um segunda contradição, individual, que tem como síntese a hifenização do sujeito como afegão-americano, permitindo-o comungar com seus familiares, amigos e compatriotas afegãos em face do preconceito que passaram a sofre após os atentados. Doutro modo, sem tal contradição, a assimilação efetivamente exclusivista de todo o sistema estadunidense de pensamento, deveria ele-mesmo considerar aos demais afegãos todos como terroristas sanguinários.

Por fim, portanto, reitera-se: diferentemente do que críticos leigos possam afirmar, as contradições internas entre pensamento e comportamento não são marcas de falhas de caráter, mas produtivas do ponto de vista da multiculturalidade e do pluralismo epistemológico. Fazem parte, inclusive, do nosso modelo educacional e de formação, ao qual Tamin Ansary pode ser parte (comparado a um educador, uma vez que influenciou, com sua carta, um grande grupo de seguidores): a estrutura da escola é uma estrutura que reproduz o espaço de divisão de classes e hierarquização dos sujeitos, mas é espaço privilegiado também para a crítica a esse modelo de organização social. Trata-se de uma função e atuação paradoxais, sim, mas quando fora que o paradoxo tornara-se pecado?


Referência



ANSARY, Tamim. West of Kabul, East of New York. In: HUNTER, Gordon (Ed.). Immigrant Voices: volume II. New York: New American Library, 2015. p. 21-37.


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