Relatório de Debates



Coordenação: Rafael Gonzaga Muller

Data: 08/03/2021

Referência(s)



MORAES, Dênis de. Comunicação, Hegemonia e Contra-hegemonia: a contribuição teórica de Gramsci. Revista Debates, v. 4, n. 1, p. 54, 29 jun. 2010. DOI 10.22456/1982-5269.12420. Disponível em: https://www.seer.ufrgs.br/debates/article/view/12420. Acesso em: 8 fev. 2021.


Pontos destacados do(s) texto(s) (paráfrases e citações)



a hegemonia pressupõe a conquista do consenso e da liderança cultural e político-ideológica de uma classe ou bloco de classes sobre as outras. (p.54)

A formação do consenso para a transformação da ordem vigente depende da capacidade das classes subalternas de se converterem em força política efetiva, forjando uma unidade de objetivos que resulte na coordenação de iniciativas e princípios ideológicos. (p.56)

[o Estado] aparelho coercitivo que subjuga as massas às relações de produção, se necessário com o emprego da força militar. (p.57)

Criados na intensificação das reivindicações sociais, estes aparelhos congregam a imprensa, os partidos políticos, os sindicatos, as associações, os movimentos sociais, a escola e a Igreja. São os agentes da hegemonia, os portadores materiais das ideologias que buscam consolidar apoios na sociedade civil, seja para manter a dominação, seja para contrariar seus pressupostos. (p.59)

“transportam signos; garantem a circulação veloz das informações; movem as idéias; viajam pelos cenários onde as práticas sociais se fazem; recolhem, produzem e distribuem conhecimento e ideologia”.(p.61)

Gramsci insiste em que não se deve reduzir o processo revolucionário às dimensões econômicas e políticas, nem a tentações insurrecionais. Ele salienta a necessidade de expandir a dimensão cultural da luta de classes, através de meios de difusão e de ações pedagógicas capazes de denunciar as estruturas de dominação da sociedade capitalista, aprofundar a consciência dos trabalhadores e exigir a transformação radical das relações sociais de produção. (p.62)

Ele destaca o enorme peso do fator cultural em uma sociedade civil mais densa, povoada de organizações complexas, na qual sobressaem múltiplas variantes intelectuais e a proeminência dos meios de comunicação na sedimentação da opinião pública (p.63)

O filósofo italiano reprova o trabalhador que lê regularmente e ajuda a manter com seu dinheiro os jornais burgueses, “aumentando a sua potência” e esquecendo-se de que tais veículos “apresentam os fatos, mesmo os mais simples, de modo a favorecer a classe burguesa e a política burguesa com prejuízo da política e da classe operária” (p.64)

O ponto nodal é transmitir conteúdos que ajudem a organizar e a unificar a opinião pública em torno de princípios e medidas de valor. (p. 67)

O processo da hegemonia inclui, então, disputa pelo monopólio dos órgãos formadores de consenso, como imprensa, partidos políticos, sindicatos, Parlamento etc.,(p.67)

Parcela preponderante da mídia quer reduzir ao mínimo o fluxo de ideias contestadoras – por mais que estas continuem existindo. (p.68)

temos que avaliar também quem controla essa variedade de ofertas, qual é a sua natureza ideológico-cultural, quais são as linhas das programações, que modalidades de interferência do público são permitidas, quais as disponibilidades de tempo e os níveis de atenção e absorção por parte de leitores, telespectadores, internautas e ouvintes, diante do excesso de estímulos audiovisuais e impressos. (p. 69)

todos os recursos táticos e canais contra-hegemônicos devem ser mobilizados e aproveitados. (p.72)

Um dos desafios centrais para o pensamento contra-hegemônico consiste em alargar a visibilidade pública de enfoques ideológicos que contribuam para a reorganização de repertórios, princípios, e variáveis de identificação e coesão, com vistas à alteração gradual e permanente das relações sociais e de poder. (p.73)


Debates para além-texto



Primeiramente, no plano conceitual, é preciso esclarecer uma diferenciação que não fica aparentemente tão clara no texto, em especial quando estudado de modo comparado com outros textos que debatem hegemonia: trata-se da diferenciação do conceito de hegemonia no plano teórico e no plano prático e sua relação com o conceito guarda-chuva mutável da "sociedade civil".

A hegemonia, em linhas gerais, é definida como exercício do controle ideológico de um grupo social sobre outros grupos sociais. Assim, no plano meramente teórico, não é possível determinar que grupo exerce controle sobre qual outro, sendo possíveis os movimentos e discursos hegemônicos nos mais variados sentidos. Quando no plano de estudo da prática social, identificamos que as ideologias burguesas são reproduzidas de modo hegemônico via mídia, representantes políticos e outros meios, exercendo controle sobre as classes operárias.

Nesse sentido, ao usar o termo "sociedade civil", pode-se gerar uma confusão. Isso porque o termo "sociedade civil" é genérico e englobante, envolvendo toda a comunidade de pessoas de uma determinada região (variando-se os critérios de inclusão e exclusão conforme povo, nação, Estado, cultura, ordens de poder, etc.). Todo modo, sua conotação é globalista, englobante, geral. Parece um mau uso dizer, portanto, que a "ideologia da sociedade civil" exerce hegemonia sobre ideais progressistas, porque, nesse caso, "sociedade civil" estaria se referindo a uma globalidade não representativa. Ignoram-se os conflitos de classe e que a sociedade civil é cheia de contradições. Não existe uma "ideologia da sociedade civil", posto que as ideologias das classes dominantes e dominadas se contradizem no bojo da sociedade civil ela mesma. Ao se falar em uma "ideologia da sociedade civil", portanto, deixa-se claro o pensamento colonizado pelas opções burguesas de ideologia (entendendo-as como próprias de toda a sociedade civil).

Entretanto, a ideia de "ideologia da sociedade civil", discursos propagados amplamente por todas as classes, configuram exatamente a descrição dos efeitos da hegemonia. Ora: se algum discurso pode ser considerado ideologia de toda a sociedade, é-se de pressupor que se trate de um discurso hegemônico que está suplantando vozes dissonantes, que são silenciadas. Um exemplo é a ideia do "brasileiro cordial".

O debate que se impõe, portanto, segue na linha da questão do "viés de confirmação". Um elemento próprio aos discursos hegemônicos é que conseguem o efeito de retroalimentação que os faz hegemônicos e não questionados. Segundo a teoria de Levinas, o homem precisa sempre confirmar o discurso de acordo com a realidade exterior; precisamos legitimar tudo o que pensamos. Desse modo, o que é pensado a priori é determinante das observações e interpretações naturais do mundo que serão consideradas legítimas. Posto em outros termos, compreender o mundo é comprimir o mundo: fazer caber dentro de formatações do que o mundo deva ser segundo ideologias e vontades do observador. Nessa linha seguem uma série de outros pensadores: Bourdieu (ao criticar os sistemas de classificação do mundo), Butler (em seus trabalhos sobre enquadramento), Derrida (com sua teoria da desconstrução), etc.

A questão que se impõe, portanto, não é a descrição do fenômeno, mas como realizar o ataque às suas bases. Como combater o "viés de confirmação". Em nossas reflexões, o "viés de confirmação" parece uma construção epistemológica que remonta a Platão. Ao separar mundo sensível (imperfeito) do mundo das ideias (perfeito), coloca a racionalidade sobre o empirismo de tal forma que as premissas racionais-ideológicas devam prevalecer sobre todas as observações sensíveis (inclusive, no caso, aquelas que afirmem o contrário do observado). Por conta disso, é mais palatável ignorar a existência de uma observação que não se adequa à estrutura teórica do pensamento do que reformular todo o pensamento para dar conta das realidades dissonantes.

Esse elemento, ao longo de todas as "revoluções do pensamento", não foi alterado historicamente. Podemos então dizer que nunca existiu, no pensamento ocidental, uma "revolução cultural". Ela pode ter sido tentada: como nos mostra, por exemplo, os movimentos cético (na filosofia) e anarquista (no político), mas sempre fora desvirtuada pela insurgência de um proposta burguesa de manutenção dessa ideologia aristocrata-platônica. Um exemplo é a Revolução Francesa, em que os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade foram subvertidos a Liberdade de Exploração, Igualdade como Padronização dos modos de vida, e Fraternidade enquanto Assistencialismo.

Apesar de tudo isso, começa a surgir novamente no bojo social uma sensação de que algo está por vir em termos de mudança, o que não pode ser ignorado. E ter consciência das pseudo-mudanças outrora ocorridas é de essencial valor para compreender e posicionar-se perante o cenário.

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