A Caçada (2020)



Autor: Rafael Gonzaga Muller


Eu trabalhava numa mecânica lá no centro da cidade muito antes de por lá na praça da rodoviária se meter a tal da Delegacia da Mulher. Nunca olhei por coisa boa aquele tipo de lugar. Acabou que pros negócios da firma até que foi bom, então depois de um tempo eu fiquei na minha. Aquele trem parecia uma afronta. Mecânico não mexe com mulher. As dona que iam lá eu até olhava, tinha umas rabas que não tinha jeito de não olhar, mas ficava de boa mascando língua. Lá na mecânica tinha um sujeito Gilberto que logo arregalava os olhos e ia incomodar as moças. Era do financeiro.

─ Doido, ─ ele falava ─ com o tanto de dona que tá vindo aqui agora, vai rolar de desenrolar uma grana boa. Se liga!

Era um tipo meio abismado. Eu falava “não mexe! que agora tem essa bronca aí [a Delegacia]”. Eu preferia tirar dos figurão que aparecia. Bobo não tem bago ou grelo. Até carburador de carro novo já troquei. Pra eles era bagatela. E eu ouvia eles ainda com as esposas no telefone ─ “já resolvi, amor” ─ pagando de macho eficiente para poder comer a boceta delas mais tarde.

Eu gostava do seu Costa. Ele devia ter por volta de uns 50 anos e era já um grisalho boa pinta. Pintoso, um pouco afetado, verdade. Mas era só carrão que ele levava e parecia que não trabalhava. Ficava na mecânica pajeando o carro. Eu pegava ele me olhando às vezes. No começo quase voei nele, mas eu lembrava da grana, lembrava do Gilberto: “pagando bem...”. E pelo menos nunca veio pro meu lado. Esse tipo aí eu respeito. Depois daquele silêncio esquisito ele me olhando eu soltava um “é... esse garotão vai dar trabalho”. Era mágico. O veado já se ouriçava e tirava o cartão. Eu podia botar o que eu quisesse no orçamento que ele arrematava. Enfiava o cartão na máquina e recomendava o serviço.

Vez ou outra ele mandava uma secretária. Não sei de onde esses afetados tiram tanta mulher. Uma mais gostosa que a outra, mas tudo dona fresca. Mecânico já foi fetiche, mas essas mulher começaram tudo a ficar fresca com medo de doença que antes nem existia e eu nem acho que exista. Não dão importância e ainda reclamam do serviço sem nem saber o que estão falando. Só quando eram as peruas do seu Costa que ele já pedia para falar comigo e autorizava tudo. Eu já sabia: aquela ladainha, telefonema, seu Costa, aprovado. Com a Delegacia aumentou o número de mulher, principalmente do seu Costa. Ali quase do lado da Delegacia parecia até que elas já chegavam ameaçando.

Até que um dia, eu bem debaixo de um Audi Q3 do seu Costa ─ ele devia trabalhar com revenda, não tinha lógica tanto dinheiro, não existe quem tenha tanto assim ─,

─ Ô, Freitas! ─ Dá um berro o Gilberto ─ Quem é essa aí, doido?

─ Quem, doido?

A dona tinha um rabão. Eu gostava. Ainda gosto. Mas era daquelas gordas metidas a magra. Disso eu não gostava, não. Entubada num vestidinho de uniforme de firma preto, os peitão quicando. Até engoli a língua e mudei o tom:

─ Pois não, dona?

Eu nem precisei esperar ela responder para saber que era das do seu Costa mesmo. Deu aquela parada, os peitão pararam também, quase mordeu a língua também.

─ É esse garotão ─ eu lembro bem que ela fez outra pausa nessa hora ─ que eu vim buscar.

Aquele “garotão”, aqueles trem de por-entender. Será que o seu Costa não era veado nada e fodia essa dona também? Será que ele fodia as dona tudo? Aquilo me deu o maior tesão. Arrumei o pau na calça e fui ter com ela.

─ Final da tarde, dona. Tô terminando o câmbio e ainda tenho que testar o engate pra ver se dei jeito nos tranco.

─ Tudo bem.

E ficou quieta, a puta. O mesmo silêncio.

─ Tudo bem... tudo bem... ─ Resmunguei meio que saindo. Ela não mexeu um dedo, mas eu não parava de ver o vulto dos peitão quicando na minha frente. Jesus!

Desde essa época eu vejo esses peitão quicando. Passou meses, ela deu papo, a gente juntou e tá juntado há uns dois anos, quando ela começou a pagar de louca. Eu já nem ligava mais para a Delegacia e, pra falar bem da verdade, nem me lembrava muito que ela existia. Até porque, um monte de mulher junta num mesmo espaço, deviam ficar fazendo é fofoca em vez de trabalhar. E eu não estou nem ligando para fofoca, porque meu negócio é trabalhar. Então eu não queria nem saber. O serviço só aumentava e meu chefe tinha acabado de me fazer sócio da mecânica. Uma porcentagem bem pequena, mas eu pelo menos já não era mais empregado. Não precisava mesmo de ninguém me dando benefício de FGTS, INSS. Melhor trabalhar de igual para igual em vez de ficar devendo favor. O Gilberto nessa época foi demitido. Disse que não aceitava, bateu de frente, tomou ferro. Eu gostava dele, mas ele era doido e não era muito inteligente mesmo. Se o patrão disse que estava ruim de fechar as contas, de conseguir pagar funcionário, e que ia precisar cortar os penduricalhos e simplificar os pagamentos, é porque estava ruim mesmo. Não importa se ele continuava andando de carrão igual o seu Costa. Patrão pode. O Gilberto foi questionar que dificuldade era aquela e ficou parecendo que estava chamando o chefe de hipócrita. Eu fiquei do lado do chefe e foi melhor para mim que conseguir trabalhar até mais, e meio que mantendo ainda o faz-me rir.

Eu sei que minha mulher (a gente não separou ainda) tá com a lataria nova, mas o seu Costa não parava de aliciar mulher para lá. A Fabiana já não trabalhava mais pra ele. Eu fiz ela largar porque eu não ia correr o risco de ser chifrado com veado. A Fabiana nessa época começou com uma tara de arrumação e limpeza que você não imagina. Ela falava que estava cuidando bem de mim, que era dedicada, a casa sempre limpa. Eu concordo. Não vou discordar, não. A casa realmente estava sempre limpa. Mas era muito. Mais dia menos dia eu não ia poder nem entrar em casa porque ela ia dizer que sujo do que jeito que eu chegava simplesmente não podia e ponto. Mas ela casou com o mecânico por opção dela. Se ela gostasse de homem limpinho, arrumado, afetado, ela que voltasse com o seu Costa que era todo bem cuidado.

Ela começou com uma mania esquisita de se espremer pelos cantos da casa toda para limpar as quinas. Um dia eu chegava, ela estava com uma escova de dentes atrás da geladeira. Os peitos saíam até xadrez da grade do motor da geladeira. Outro dia era atrás da TV, que eu não sei como ela não derrubava. Todo dia era um canto diferente com aquela escova velha. Gorda metida a magra, achava que cabia em qualquer buraco. Até que um dia eu cheguei ela estava metida com metade do corpo debaixo do móvel da cozinha. A bunda arrebitada para fora, de quatro. Era uma sexta, eu já tinha tomado umas duas latinhas lá na mecânica mesmo para relaxar, cheguei em casa no maior tesão. Aí essa mulher desse jeito, com a bunda para cima, gritando “amor, me ajuda”. Ela já se metia em tudo quanto é canto para limpeza e nunca tinha ficado entalada. Eu não tinha como saber que ela estava entalada. Eu achei que era uma brincadeira diferente, que, por sinal, ela sempre gostou de fazer. Rasguei aquela saia-tubo que ela não tirava para nada e meti nela. A saia saiu até voando de tão apertada que estava naquela bunda. Depois eu comprei outra igualzinha para ela no sábado.

Foi quando ela parou com aquela limpeza toda. Só que aí ficou até porca também. Foi uma semana sem olhar na minha cara, sem lavar uma vasilha, e eu já tinha pedido desculpas por eu ter entendido errado, que não era bem uma safadezazinha que ela queria. Até que no outro sábado eu dei um ultimato: a gente precisava conversar sério e resolver, porque não podia ser só do jeito que ela queria. Ela precisava ceder em alguma coisa pelo menos. Ela gritava, andava em círculo, até que deu um pulo de cabrito doido por cima de mesa de centro da sala e veio ter com as mãos no meu pescoço. Ela bufava com um olho arregalado e outro nem tanto. Uma banda do nariz até escorria água a cada expirada. O gatuno da vizinha que se espreitava por lá igual assombração miou sei lá de onde e eu soube que era ele só pelo som. A gorda quase me jogava para trás na hora que eu me escorei no móvel da TV e consegui tirar ela de cima de mim. Ela tropeçou na mesa de centro e foi com a cabeça na porta do armário-estante do outro lado. A cabeça vazou para dentro do móvel e não saía mais. Entalou.

─ Féladaputa! Corno!

A voz dela saiu meio abafada, meio embargada e meio esquisita igual pirralho gritando na frente de ventilador. Aqueles gritos me deram uma baita irritação. Então se perguntarem se eu estava irado, ali eu estava. Eu comecei a rir. Não por mal. Ela devia pensar “desgraçado!”. Eu só conseguia pensar ─ até que deixei escapar ─ que ela devia estar bem confortável ali espremida dentro do móvel com o bundão empinado. Só lhe faltava a escova descabelada. Aí ela gemeu: ─ Desgraçado!

Eu pensei “acertei”. Eu quase pude ouvir o gato: “não é que acertou?”. Nisso eu já dava gargalhada. Peguei ela pela cintura e puxei para ver se tirava ela de lá. Mas não sei se eu que estava sem força ou ela que estava entalada mesmo. Ela esperneava e eu ria e o gato desistia e se virava desinteressado procurando o rumo de casa. Ela me acertou um chute no joelho.

─ Se vira aí, então, ─ esbravejei ─ puta arregaçada! ─ Virei as costas e saí de casa. No mesmo dia, horas depois, estava a delegada da tal da Delegacia da Mulher me dando voz de prisão sem nem parar para me ouvir.

Depois disso que eu vim a descobrir que era corno mesmo. E ela mesmo tinha me falado naquele dia que ela se enfiou no armário a gritar, mas eu achei que era só xingamento. Mas hoje eu entendo que as palavras têm apenas o significado que elas têm e ponto. Junto com o processo criminal veio o pedido de divórcio ─ ela alegou união estável, seguindo sugestão do advogado do seu Costa, lógico, mas a gente nem tinha casado no papel, então o absurdo já começou por aí. Além disso, com a louca do jeito que estava, “estável” era a última coisa que poderia ser aquele relacionamento. Como nem ela nem eu tínhamos bens ─ explicou o juiz ─ foi fácil.

A audiência criminal é que foi um saco.

─ Freitas, ─ começou o defensor público ─ violência doméstica é acusação séria. Pelo menos durante o processo é bom você ficar longe de ser visto em boteco, em bebedeira. ─ Outro veado, ─ pensei ─ só pode...

─ Aqui em Lafaiete até Jesus tá montado no saca-rolha! ─ Retruquei ─ Eu bebo o que eu quiser.

A acusação de alcoolismo veio também, como se fosse crime. Era óbvio que ela ia apelar para sentimentalismo e tentar atacar minha reputação pessoal, que não tem nada a ver aquela porra daquele processo. Nego só olha as pinga que eu tomo, mas não vê os tombo que eu levo. Nesse tombo que eu entendi o que estava se passando. E aí minha sorte foi que o defensor era mesmo um veadinho bosta e eu pude falar por mim mesmo sem precisar ficar ouvindo o que ele tinha para falar.

─ Olha, ─ disse eu para o juiz que era recém-chegado na cidade e não conhecia da história do lugar ─ você não sabe como eram as coisas por aqui antes dessa Delegacia da Mulher chegar, então eu vou contar para você. Antes não se ouvia falar em nada de violência, mulher nem saía de casa, então não tinha motivo. Depois, começou uma real caça aos homens de verdade dessa cidade. Uns presos, outros não podiam ficar a sei lá quantos metros das mulheres. Como a cidade é pequena e as mulheres ficam batendo perna o dia todo, esses aí tiveram que sair da cidade. E sem homem para trabalhar, é lógico que a cidade virou o que virou. Mulher compra é com dinheiro de marido, então essa mulherada gastando foi um processo artificial e, mesmo com os maridos pagando as faturas em dia, a conta veio. E se a gente tenta impedir os gastos, é violência. Pode olhar: depois da Delegacia da Mulher, aumentaram os números de condenações de homens. Só de homens. Eu não tenho nada contra mulher nem contra veado, mas que eles não entendem nada de contas isso é um fato. Eu não estou defendendo homem que bate em mulher, não, mas é uma questão de responsabilidade com o município e com as contas: se continuar essa perseguição a homens, não vai ter como pagar as dívidas que as mulheres fizeram no mercado, por mais que já estivessem pagas. E a principal prova de que é uma perseguição deslavada é exatamente porque essas mulheres todas sabem que homem de verdade está acabando, mas mesmo assim elas continuam nessa perseguição. Elas estão todas iludidas com os veados igual o seu Costa, limpinho, bonito, cheio da grana, com discurso bonito, mas que a gente sabe que não trabalha. E não sabe de onde vem o dinheiro dos carrões. Que aí, eu não posso provar, mas a gente ouve muito já há um bom tempo... que é para financiar exatamente o nosso extermínio. Então tem que dar um jeito de parar com isso. Seja como for.

O juiz ficou preocupado. Por um momento eu achei que era porque ele percebeu que ele também estava ameaçado naquela cidade e ouvir a verdade às vezes incomoda. Aí ele deu uma batidinha frouxa na mesa com aquele martelinho ─ quem nem devia chamar martelo, porque não é martelo de verdade ─ e suspendeu a audiência. Com aquela afetação na hora de pegar no cabo do martelo, eu percebi que eu falei bem e que ele ficou preocupado, na verdade, porque o esquema da corja dele já era público e notório. Ele pediu um perito em economia para fazer avaliação da cidade antes de decidir definitivamente sobre a minha situação, mas ainda com restrição de ir em casa.

Saí de lá corrido para a mecânica. Já tinha um outro no meu lugar. Meu chefe me gritou para falar comigo, mas eu nem fui porque já tinha entendido. O seu Costa estava lá, olhando para o novato arrumando o carro dele, do mesmo jeito que ficava para mim. Ele me viu e continuou lá, calado, me encarando.

─ Veado. ─ Resmunguei. Busquei uma muda de roupa amarrotada e suja no armário e saí a passos rápidos sem nem olhar para trás, arrumando a calça. Não pisei mais em Lafaiete, atendendo à liminar. Eu sabia que ele estava me olhando satisfeito.

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