Galina Popóvka (2020)



Autor: Rafael Gonzaga Muller


A naturalidade das coisas está nas atividades que, para além de um chamado animal, quase instintivo, existe uma retroalimentação positiva que nos faz querer e agir sempre mais. Esse instinto animal, tal qual nos humanos, não se furtava de atormentar também as galinhas.

Galina Popóvka era apenas mais uma delas. Poedeira, botar ovos lhe era tão natural que, por vezes, mesmo após as postas matinais, acabava por surpreender-se ao pôr-do-sol, em especial em dias frios, a olhar o astro-rei indo-se embora e o coração encher-se de calor. Nessas tardes, encolhia-se em sua palha em posição estratégica. De uma quina interna podia ver um vão de montanha por onde o sol baixava em tempos outonais e, assim, prolongava o prazer da contemplação.

Nessas coincidências, do sol metendo-se pela rachadura das montanhas, seu coração galináceo inflava-se e todo um calor percorria-lhe desde seus pezinhos pelados ao esterno proeminente, dissolvendo-se por entre as penas que quase eriçavam-se. Esforçava-se para manter-se discreta como se nada lhe ocorrera.

Mas era apenas o sol começar a pôr-se que seu coração parecia baixar por dentro de seu corpinho rechonchudo, baixando-se por suas vias digestivas. Quase sem perceber-se, sua cloaca inchava-se de sangue quente passando pelas veias periféricas e seu sexo se dilatava. Num parto orgásmico punha um ovo adicional ao final daquelas tardes solitárias e, coisa, estranha, por vezes irrigadas de uma tristeza insofismável. Era de um certo tipo de tristeza que lhe servia a sensação de acalanto genuíno, natural. E assim dava-se sua atividade.

Em uma dessas manhãs, Popóvka, em uma profunda agitação, com o rosto quase em convulsão contida, após a postura matinal tradicional, aprochega-se de uma das comadres para partilhar-lhe seu segredo, o qual já não podia mais guardar.

- Popochénika! Preciso contar-lhe algo essencial.

- Oh! Algo, essencial, é? Hihihi.

Popochénika, se fosse humana, seria uma ironista liberal moderna, que não pode se furtar a rir-se dos argumentos empíricos bem estruturados de galinhas como Popóvka. Mas esta não se incomodava pois até divertia-se com a leveza com que a comadre levava a vida, acreditando sem acreditar mas acreditando na beleza da naturalidade.

Popóvka continuou:

- Tive uma experiência.

- Oh! Uma experiência! Hihihi.

- Sim. Uma experiência natural, essencial. Estava mirando, como gosto de fazer, ao final das tardes, o sol se pôr por entre as rachaduras da montanha. Dali do popozário (era como chamavam o galinheiro) de onde é possível vê-lo. De uma esquina interna. Num dado momento, quando tudo é penumbra, minhas vistas se turvavam e não sei que qualquer coisa que possa ter visto para lá da curva da montanha. Coisa estranha, meu corpo se estremeceu e botei-me mais um ovo! Veja só: mais um!

- Oh! Você é uma louca! Hihihi. Deve de estar danada! Hihihi. Uma louca! Hihihi. Pó! Hihihi!

Popochénika não compreendia nada. Para referenciais humanos, seria uma porta. Ainda assim, e talvez por isso, era-lhe tão confortável a Popóvka confessar-se-lhe seus segredos, criando entre as duas uma intimidade até mesmo estranha. Popóvka compadecia-lhe do sofrimento de Popochénika mesmo quando esta mesmo não se dava conta dele. Mas essa relação, aparentemente unilateral, servia-se a ambas, posto que do contrário ninguém lhe daria ouvidos a Popochénika.

Não tardou, como era de se esperar, que aquela história se espalhara no galinheiro das maneiras mais deturpadas o possível. Algumas aumentaram o número de ovos colocados. Outras diziam que Popóvka haveria seduzido o galo e seus ovos estariam galados. Outra parte especulava que Popóvka mesmo era uma capitalista, que botava mais ovos visando maior lucro perante os humanos coletores, ainda que mal soubessem o que era lucro e sequer o tivessem. Coisa estranha, a história que mais ganhou visibilidade, talvez pelos traços explicitamente fantásticos (porque a história do lucro era certamente mais fantástica, só que as galinhas não o podiam compreender), fora a dos devaneios crepusculares de Popóvka. Teria a comadre tido uma visão, enxergado para além da curva, como se os raios luminosos assim pudessem fazê-la (a curva), e teria tido a revelação de um lobo! Oh! Sim! Um lobo! Ou uma raposa. Ou outra fera similar. Também não concordavam nisso. Mas teria caninos e seria uma ameaça derradeira.

Em menos de dois dias as galinhas estavam organizadas. É-lhes natural organizarem-se facilmente em torno de ilusões, mas com muita dificuldade em torno de argumentos mais fidedignos. Até Galina Popóvka ajuntou-se, pois já ouvia tantas histórias a respeito de uma Popóvka, que imaginava tratar-se de uma homônima. E, tendo havido uma revelação, era-lhe ideal conhecer também as revelações, tal qual era o seu pensamento.

Fora decidido em reunião. Não havia dúvidas que a turbidez de visão da comadre-reveladora (que a essa altura já estrategicamente perdera o nome) era o sinal ele-mesmo da sua clarividência. Só alguém com tamanha clarividência poderia ver tão bem por vistas turvas. A ameaça era real e havia sido confirmada, portanto. Como as galinhas são muitas e gritam bem alto, fora preciso incorporar também as histórias particulares que cada uma criou para que todas estivessem satisfeitas e a transição da escuridão para a clarividência estivesse bem negociada. Por isso mesmo, haviam indícios (fortes, por sinal), de um papiro que a comadre-reveladora teria deixado informando que botar mais ovos seria a salvação. Evitaria a tentação de serem presas da ameaça (que supostamente gostaria mais de ovos crus do que de suculentas galinhas ao molho pardo) e, caso não se confirmasse a preferência da ameaça, os humanos estariam ali para protegê-las, devendo ser recompensados, legitimamente, por isso.

Naturalmente, as galinhas dividir-se-iam entre essas explicações e talvez surgissem com várias outras. Relevante é que, fosse o que fosse, não restava dúvidas que a salvação estava em botar mais ovos.

Algo inesperado, então, ocorria a Galina Popóvka. Assuntou-lhe fortemente uma tristeza mais profunda e incerta sobre o que seria dela naquele popospício (o nome fora alterado para incorporar um significado mais auspicioso, conforme relatos da época e fontes documentais). Não podia senão ver outra coisa que a ameaça. Buscava, aos finais de tarde, o sol na rachadura da montanha e não podia ver outra coisa senão vultos movendo-se agilmente. Comentava frequentemente com Popochénika e outras comadres (agora a recomendação é que estivessem sempre juntas, para que as decisões tomadas fossem sempre majoritárias nos grupos) sobre essas visões.

- Nós também temos, comadre. Respondia uma.

- São ágeis, não? Hihihi.

- Até me excita pensar nos caninos molhados na minha rachadura da montanha! Hihihi. Hihihi.

E botavam ovos. Loucamente. Todas excitadas pela ameaça de morte e pela segurança dos tais Lucros (cuja grafia, apesar de galinhas não escreverem, tinha sido referendada que se desse em inicial maiúscula). Apenas Popóvka não se excitava mais com o pôr-do-sol.

Em seu aniversário, as amigas tiveram uma ideia que lhes pareceu fantástica, mas viriam logo a perceber que não fora tão boa assim. Arrumaram um gogo-galo para seduzir-lhe a Popóvka de modo que ela pudesse estimular-se a botar alguns ovos a mais. Fizeram-lhe várias recomendações de segurança para que o ovo não lhe saísse galado, posto que os humanos a poderiam punir por isso, mas Popóvka sequer podia concentrar-se. Era-lhe tão natural a postura, mais natural que a todas. E, de repente, todas botavam a frequências cada vez mais absurdas, e tão somente isso ocorria, perdia-lhe a naturalidade.

A naturalidade, dizia para si mesma, é querer e agir cada vez mais. Eu quero viver. É preciso botar ovos para viver. Logo, eu quero botar ovos. Organizava perfeitamente os silogismos, como lhe era verdadeiramente natural. Mas pouco interessavam os silogismos à comunidade. Não eram brancos e redondos. Era preciso que fossem brancos e redondos para ter alguma credibilidade.

Todo esse raciocínio lhe passou pela mente durante o breve decurso de um minuto e meio, durante o qual o galo contratado sensualizava dançando para ela e gritando esganiçado algo que muito de longo poderia se apreciar como música, porém sem letra. Assim fazia para sobreviver, já que não punha ovos.

Chegou então à derradeira conclusão: só podia haver uma falácia em toda aquela estrutura retórica: as amigas. Brigou com todas. De voo batido, batia as asas, batiam-lhe nela, ela batia nas outras. Penas voaram. Apenas as galinhas que não. Naquela noite Popóvka preferiu dormir em cima de uma árvore cuja copa invadia o galinheiro, antes que com as amigas ironistas no aconchego da palha.

Fora uma noite agitada. Mal pretendia cair no sono, ouvia uivos. Poderia aquilo ser apenas uma alucinação pré-sono ou pós-cochilo, mas ao mesmo tempo pareciam-lhe tão reais. Não havia temor maior que a morte, em especial em noite fria de desalento perante todos. Esforçava-se para fechar os olhos ao mesmo tempo que não podia deixar de querer saber o se passava lá fora. De vez em quando levantava-se, sacudia um pouco as penas do sereno do frio da noite, e caminhava pelos galhos para tentar melhorar sua visão por entre as folhas da copa, mas era em vão. Voltava a tentar um aconchego desajeitado em algum outro ponto da copa da árvore de alguma outra forma.

Amanhecia e Galina Popóvka não dormira nada. O gogo-galo, que em seu duplo turno também era segurança de guarda da ameaça, marchou conservador para o centro do galinheiro. Não aparentava mais nada do molejo seduzente da noite anterior. Inflou o peito e parou. Deu uma sacudidela nas asas e nas penas. Percebeu que poderia tomar mais fôlego e relaxou. Respirou umas duas vezes. Balançou-se com virilidade mais um pouco. Inflou novamente o peito, agora, aquecido, para um pouco mais além do que antes e berrou.

Eram quatro da madrugada quando Galina Popóvka assustou-se e caiu de súbito no meio do galinheiro. No meio da manhã ainda escura, as outras galinhas colocaram-se todas para fora, movendo-se rapidamente, em torno da desfalecida assustada. Eram vultos.


***

P.S.: Algumas horas adiante, conforme contam os relatos documentais policiais, Galina Popóvka, ao clarear o dia, fora encontrada solitariamente morta e dilacerada no meio do galinheiro. A perícia identificou, de modo inconclusivo, uma série de bicadas em seu corpo. Admitiram em juízo, entretanto, que poderiam ter sido feitas por caninos da ameaça em movimentos de chicote do pescoço. O mais provável, portanto, é que a ameaça preferisse atacar assim do que com uma sustentável e respeitável mordedura.

Por via das dúvidas, a árvore foi derrubada.

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