Racionikov (2021)



Autor: Rafael Gonzaga Muller


A poeira se acumulava, imperiosa, pragmática. Racionikov era tales quales: passaria o pano uma, duas, três vezes. Os pelinhos de poeira, gravetos agarrados no paninho úmido deixariam riscos de sujeira por cima do móvel. Um processo infinito, circular. Enfadonho mesmo. Noutro dia, a poeira estaria lá de novo, imperiosa, pragmática. Sendo-lhe até muito útil: disfarçando os lastros de sujeira densa que o paninho, sempre sujo, deixaria sobre os móveis. Era preciso passar o pano uma dúzia de vezes, enxaguá-lo uma dúzia de vezes, passá-lo novamente outra dúzia. Que fosse preciso! Continuaria sendo!

Atrás e por cima da poeira Racionikov brincava com seu pequeno ábaco infantil, fazendo contas, equilibrando-as. O resultado importava? Mais a simetria, o equilíbrio de contas de um e outro lado. E o pivô central, que não permitia qualquer parcialidade e necessariamente pendia para um ou para outro lado. Seu ábacozinho, entretanto, tinha uma perninha defeituosa. Joga-se-lho mais contas para a direita, pendia como um louco, ameaçava tombar-lhe da mesa, cair, estatelar-se. Um tratante! De que valiam as contas? A matemática? Senão a um senso estético tão particular do operador do ábaco, racional, Racionikov.

Foram cinco dias, cinco contas, que realizou por último, antes de optar por nunca mais passar paninhos nos móveis ou brincar com ábacozinho manco. No primeiro, não saiu de casa para trabalhar. Ficou jogado sobre a cama imóvel. O móvel parecia-lhe estar por cima dele, e não o contrário. Se pensava? No tanto que pesava-lhe pensar, talvez. O chefe ligou três vezes. A mãe duas. Não eram números bons. Contabilizou: cinco ligações. A primeira é de sempre um desinteresse, não vale pegar. A segunda um ok. A terceira um desespero. Mais que isso, pouco importa. Os números não erram. Que ligassem! Não compareceu.

Levantou-se com a bexiga cheia e o corpo já desidratado apenas no começo da noite. Passou no banheiro, voltou ao quarto, sentou-se pesado com as costas encurvadas na frente do ábaco. Tomou uma porçãozinha de 20% de contas vermelhas - todas estavam centrais - e jogou para a esquerda. Manteve-se estável. Fora simbólico, revelador. As insatisfações da vida estavam postas de lado, ao relento, resolvidas de alguma forma. Relaxou, enfim. Tornou para a cama e adormeceu.

No segundo dia, não tinha de trabalhar. Constam dos documentos oficiais que tratar-se-ia de um feriado, férias ou final de semana. Não era um dia útil. Acordou mais cedo, dobrou um travesseiro na cabeceira da cama, colocou-se reclinado reto e alinhado como quem sofre de náuseas ou da boca do estômago. O braço cruzou por trás da cabeça, relaxado. Poderia assistir a algo. Não tinha o controle, entretanto. Pouco importava: assistiu a seus pensamentos flutuarem na frente de seu rosto como bolinhas de catarata que flutuam nos olhos dos doentes oftálmicos. Pensava, afinal. Se para quê? Não havia. Adormeceu e acordou na mesma posição algumas vezes. Outras vezes, sem acordar, sabia-se adormecido e acordava dentro do mesmo sonho, lúcido, repetido, constante. Era cansativo, mas divertido. O sol subiu à esquerda, centralizou-se, baixou do outro lado, desequilibrou com seu peso a perninha do ábaco. Lembrou-se dele. Jogou 20% das pedrinhas - azuis - para a direita, equilibrando as contas.

No terceiro dia, meteu-se na rua logo bem cedo. O comércio fervilhante. Pessoas por todos os lados. Empurrões, esbarrões, abalroamentos, apertos de mão: todo tipo de contato e encontro. Entrou na lojinha de pesca. “Tem corda?”. “Que tipo?”. “Para atar barquinho de pesca”. “Tem demais!”. “Ótimo!”. Aquele dia ia bem. Podia ver-se confrontando seus medos. Dava-lhe alguma força. Tinha vários medos. Do mar também. Respeitava-o. Mas ia pescar? Tinha em mente... A corda chegou pelas mãos do vendedor, de sisal, sisuda, áspera. Tinha um toque gostoso. A mão percorria fechada seu corpo desmilinguido, semirrígido. Os calos da mão eram, enfim, sensíveis. Aplicava-lhe algumas tensões, verificando-lhe a resistência. Sim. Estava boa. Era ela. Sentiu-se animado. Aceitou, comprou, pagou, meteu-se na rua de novo e foi-se para casa.

Entrando, observou os móveis. Mais uma camada de poeira se acumulava. Recusava-se a limpá-la à casa toda. Foi correndo para o quarto e sentou ereto e satisfeito perante o ábaco. Colocou a corda do lado. Depois levantou-a novamente e passou o paninho com raiva na mesa para que não sujasse a corda. Limpou-a onde já havia empoeirado-se um pouco. Limpou também por debaixo do ábaco. Parou e pensou, olhando para a corda. Para a direita ou para a esquerda? Jogou 20% - verdes - para a esquerda. O ábacozinho nem se mexeu.

O quarto dia arranjou um atestado médico. A cabeça doía-lhe de uma maneira impressionante. O dia resumiu-se a dipironas, descanso, água e pensamentos neurastênicos que se formavam como imagens mentais plenamente visíveis: dos vasos cerebrais enervando-se e rompendo-se e esbanjando sangue por meio da massa cinzenta cerebral e a dor lancinante daquilo que os médicos chamariam acidente vascular cerebral. Acidente? Levantou-se com dificuldade e brutal foi até o ábaco e meteu-lhe a mão lançando 20% de contas amarelas para a direita. Queria melhorar.

No quinto dia acordou sem se saber direito. Empolgado sem ânimo, como alguém que espera sabendo que não vai chegar. Sentiu-se abstrato. Qual o propósito? Qual a proposição? Qual a sugestão? Propósito talvez seja isso: uma entidade sempre futura. Enquanto sugestão, está sempre por acontecer. Parte de um discurso a ser desenvolvido. A acontecer. Quando se ia levantando, a campainha soou. Meteu-se na cama e fechou a cara com o lençol. Era, afinal, uma criança, fugidio daquilo que mais lhe atormentava: a vida lá de fora. Mas era ela que havia para ser vivida. Uma vida sem pó, sem contas, sem equilíbrio. Uma vida inestética. A estética da brutalidade. A normalização. Racionikov não gostava. Eram todos racionais! Suplantavam sentimentos com uma facilidade sem igual. Os mesmos sentimentos, talvez, que se acumulavam no pó da casa de Racionikov. Passar o pano como todos passavam, ir trabalhar, fazer contas matemáticas, divertir-se, pescar. Nada disso. Preferia a estética simétrica, o pó acumulado, a corda.

Levantou-se lento. Parecia esforçar-se para sentir a dor de cabeça que outrora sentira. Agora a queria, para legitimar sua lassidão. Sentou frente ao ábaco. Faltavam-lhe centrais 20% de continhas roxas. Um pensamento veio-lhe à mente: como tudo é tão especulativo! Essa vida... A outra...

Meteu os dois indicadores no centro do ábaco, por dentro do meio das continhas roxas. Sentiu o toque duro da madeirinha leve de que era feito. Deslizou, tentando fazer coincidir os tempos, para a direita e para a esquerda, 10% para cada. O ábaco trepidou, mas segurou-se. Tinha 50% das contas de cada lado, com cores diferentes. Só o roxo-violeta da especulação equilibrava-se.

O vermelho das insatisfações avolumava-se à esquerda.

O azul da diversão tediosa avolumava-se à direita.

O verde da curiosidade sensória metia-se para a esquerda.

O violento amarelo do medo da dor ia à direita.

Olhou de novo o azul, triste, pálido. Divertira-se mesmo em sonhos lúcidos? Quão lúcidos? Seria aquele, o propósito? Mas um propósito passado? Feito de histórias vividas, sonhadas? O azul parecia-lhe sem propósito ao lado do amarelo. Juntos eram tão verdes que Racionikov coçava-se para meter-lhe o dedo para a esquerda. Mas era tão necessário o equilíbrio, o binarismo. O propósito é postulado em sua forma binária: tem ou não tem propósito pelo simples fato de que afirmar o despropósito é difícil, e faz as pessoas viverem. Se o sentido fosse um continuum, veríamos que todo sentido que parece haver é necessariamente pequeno. Desvalorizando-se o propósito, seríamos obrigados a viver amarelamente amedrontados.

A diversão azul pareceu-lhe pequenina. Começou a arrastar, devagarinho, conta azul a conta azul, da direita para a esquerda, desequilibrando o ábaco. Mas como a sua perninha frágil era a direita, manteve-se ali quieto, equilibrado. Parecia, antes de tudo, decidido. Privilegiava aquelas contas que, finalmente, acumularam-se definitivamente à esquerda: insatisfação, curiosidade, meia especulação e alguns azuis de propósito despropositado.

Racionikov tomou um banquinho e posicionou-o no centro da sala. Passou o pano mecanicamente doze vezes, lavando-o entre uma passada e outra. Não poderia haver uma finura de poeira para ele. Tomou o ábacozinho com as duas mãos, com muito amor. Apoiou-lhe no banquinho. O ábaco era-lhe quase um pai para ele, dono do conhecimento certo, imperioso, dava-lhe ordens. Jogou a corda limpa por uma haste que atravessava rígida a sala. Fez um nó circular violento em silêncio. Passou a mão e sentiu novamente toda aquela curiosidade sensória do toque áspero gostoso. Subiu no banquinho sem tocar no ábacozinho que ficava quietinho gritando a seu lado, com mais contas para a esquerda que para a direita, calculado. Passou a corda no pescoço. Sentiu a aspereza na jugular. Ela pulsava. Lembrou-se do acidente vascular cerebral.

Acidente? O ábacozinho foi ao chão junto com o banquinho. As contas espalharam-se no cômodo.

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