Zoológico (2021)



Autor: Rafael Gonzaga Muller


A branquitude corria solta na escola. Na verdade, apenas andava a passos largos pela agitação estudantil natural, presa dentro dos muros e grades da Fortaleza que se erguia em bairro nobre da cidade homônima. Eram brancos, mas assimilados pela doutrinação da concorrência de todos contra todos, da sobrevivência do mais forte militar ou mais gabaritado economista, o que, no fundo, não fazia diferença, pois as grandes corporações dominam a terra, as armas e as finanças, a um só tempo. A expectativa nos inconscientes adestrados dali era só essa: tornar-se o próximo dominador. A realidade prática, entretanto, os colocava enquanto alunos de um sistema escolar tradicional, castrador da inventividade, sem partido e sem política, preparador para um próximo holocausto. Tudo era inverso: na sociedade, mestres. Na escola, enquanto alunos, súditos. Na sociedade, manter a ordem das coisas. Na escola, subvertê-las enquanto era tempo. Quanto mais joviais, mais enérgicos e menos controláveis. Progressiva, a Disciplina, que toma tempo, ia inculcando-lhes os cérebros e tornando-os mais lentos e letárgicos.

Os armários tinham chaves e cadeados: mais para ensinar-lhes a mítica da segurança, do crime, do risco e da ameaça do que para proteger-lhes os pertences. A biblioteca, um sistema informatizado de controle dos livros selecionados disponíveis e emprestados, com empréstimos em tempo proporcional às estimativas de tempo de leitura dos alunos, mais para ensinar-lhes o tempo ótimo de processamento mental e digestão superficial do texto do que para manter os pertences da biblioteca. Debruçar-se sobre um texto estava fora de questão: era necessário postura ereta e firme, elegante. Mesma coisa a correria: mais para ensinar-lhes a viver sem tempo para engajar-se com a mudança do que para dar-lhes oportunidades de usar a rapidez para mudar as coisas velozmente, o que poderia degringolar na palavra diabólica proibida: desordem.

Os professores dominavam bem seus alunos. Já não usavam de palmatórias, mas de um sistema rígido de recompensa positiva para os melhores classificados, associado, naturalmente, a um sistema rígido de punição caso esses melhores classificados optassem por partilhar seus ganhos com os outros: ora, tal partilha tornaria os outros letárgicos, sem o desejo efetivo de obter os mesmos ganhos e lucros. E com os outros letárgicos, a vitória dos enérgicos estaria garantida. E os enérgicos tornar-se-iam letárgicos pela falta de esforço despendida para ganhar. E toda a energia e velocidade que propicia a manutenção da postura ereta, firme e elegante seria sepultada. Compartilhamento e lentidão eram duas faces de uma mesma moeda. Os alunos não eram mulas - que podem realizar grandes trabalhos em grandes cargas, ainda que lentamente -, mas cavalos alazões: rápidos, que sozinhos eram mais velozes, ainda que não fizessem obra nenhuma (o Sistema já estava construído pelos seus pais). E sempre elegantes. A vergonha inestética, o linchamento social por serem “cultuadores da letargia”, todas punições nefastas, eram difusas e abstratas, não partindo de um professor diretamente, mas da própria cultura. Eram as Mulas. Pouco duravam na escola: convertiam-se aos primeiros alazões com trabalho duro (afinal, todos ali tinham condições basais mais ou menos igualitárias para tornarem-se alazões) e usavam de sua experiência de superação para manter o mito; ou abandonavam a escola e nunca mais se ouvia falar deles - fracassados; ou suicidavam-se, e não se falava nisso também porque não se sabia bem ainda como era a morte. O risco de a morte ser boa ou um mundo letárgico juntava uma série de valores os quais deveriam ser evitados: risco, bondade, letargia.

Com efeito, havia um professor que adotava uma pedagogia toda inversa: estimulava o compartilhamento; não temia arrombamentos em seu armário - que vivia vazio, salvo quando algum aluno lhe deixava, furtivamente, uma maçã de presente; e nem tinha trancas; carregava tudo o que tinha na cabeça e por isso mesmo era meio corcunda e escoliótico. Tremia da mão direita, que não tinha muita força. Destro por imposição e trêmulo, sua letra era um garrancho. Daí que nas aulas só falava, contava histórias, sem fazer - vejam que absurdo! - um sequer esquema, infográfico ou fluxograma para alinhar o raciocínio às mentes das quintas séries. Seu nome? Prof. Abrakadov.

Não se sabia como uma Mula tornara-se e mantivera-se professor ali. Tampouco, coisa estranha, como era logo o cultuador da letargia e da palavra maldita o que mais exercia uma influência controladora sobre seus alunos. Todos idolatravam-lhe a ele: não a seu corpo torto; nem a suas opções pedagógicas e comportamentos; mas a Ele. Não se sabia também bem o que haveria além de corpo e comportamento nas gentes, para se dizer o quê exatamente era cultuado no prof. Abrakadov. Fato é que - e fato é fato - era hipnotizadamente valorizado.

Tal era hipnose coletiva e a influência que Abrakadov exercia sobre seus alunos que mal preparava as aulas. Segundo nossa pesquisa documental, consta, inclusive dos registros, que Abrakadov fora várias vezes denunciado por não dar aulas, sob argumento dos alunos que afirmavam recorrentemente de que a aula dele sequer parecia-se com aula, de tão boa que era. Naturalmente, os alunos mais jovens e menos controlados que falavam essas tonterías. Mas a palavra daqueles pequenos mentirosos era suficiente nesse caso para servir-lhe de registro contra o professor, tão odiado e temido dos pais alazões.


***

Certo dia, durante o horário do intervalo, impressionou-se Abrakadov ao abrir o armário que a ele lhe designaram - ele nunca usava o termo "seu armário", e certamente, em respeito à sua memória, acredito melhor não o fazer igualmente ou, caso o faça durante esses registros rápidos, que eu deixe registrado também explicitamente que não se trata de um ato consciente, mas inconsciente de um ex-alazão escritor-repórter. Não estava lá uma maçã, mas uma goiaba! E nem eram tempos de goiaba. Os registros, muito exatos, afirmam que dia 19 de novembro de 2019, uma terça-feira, Abrakadov fora novamente registrado como infrequente em sua atividade docente, um dia antes daquele fatídico dia de abrupto encerramento das atividades letivas da escola. Dia esse que, acreditamos, tenha sido o dia da notável goiaba. Poderia ter sido também segunda-feira, 18 de novembro, quando também há registro de infrequência, mas não teríamos informações para preencher a rotina do dia 19 de Abrakadov. Na verdade, as infrequências são tantas que cremos que pouco importa o dia da goiaba, goiaba suculenta, goiaba vermelho de um sangue anêmico, sangue de mula, vermelho-mula.

A goiaba tinha bicho. Estava bichada. Abrakadov pegou-a primeiro com a mão direita, trêmula. Ainda não o sabia. Mordeu-a lento, tentando acertar a boca, meio de lado, torto que era. Um suplício! Nos dentes, sentiu um tremor diferente. Um fisiologista, médico ou odontólogo poderia atestar firmemente tratar-se de uma piora de seu quadro clínico de tortidão. Abrakadov era cético, entretanto. Sabia por experiência própria, por empiria: havia algo ali se mexendo e era mais que a própria mandíbula e os músculos faciais e labiais e as mãos. Parou um momento - na sua forma de parar não parada, porque a tremulação, enquanto ação, não para.

O sinal soou. Abrakadov colocou a goiaba na mão esquerda, ainda inteira, sentindo-a mexer-se por dentro, e pôs em direção à sala. Ia arrastando a perna direita, trêmula também, todo torto. Chegava atrasado. Os alunos o sabiam. Não era problema. Já estavam no quinto debate. Uma coisa que faziam às escondidas, coisa que só Abrakadov aprovava. Não achava ruim. Dizia: o direito à privacidade tem que ser conquistado pela luta! Um louco! Quem ousaria falar de um direito político ali. Ele dizia até de outros.

- Vejam essa goiaba! Deixaram-na, creio eu, que para mim!

E levantava a goiaba aos céus. Os alunos se espantaram. Alguns riram. Algo havia ali. Abrakadov tomou a goiaba com ambas as mãos, uma mais forte dando o suporte. A mais fraca, tremendo, ia fazendo movimentos rápidos tentando serrá-la. A goiaba pocou na sua mão, manchou a saia da camisa. Estava todo borrado.

- Ela tem bicho!

"Óh! Que nojo!", pensou um aluno. Outro riu por dentro.

- Quem faria isso? Deixar-me uma goiaba com... com...

Fez-se silêncio.

Alguns alunos mal se aguentavam. Estaria Abrakadov emputecido? Tiraram-no do sério?

- ...com Vida!

"Óh! Não!", exclamaram!

- Vejam bem que saliências!

Começou Abrakadov. O bichinho branco se remexia de um lado para outro, umedecido, tentava-se se jogar para dentro e para fora da metade da goiaba. O professor em nada se incomodara com o presente de grego. Pelo contrário, divertia-se. Andava de um lado para o outro com a goiaba embicheirada por entre os alunos. Uns gritavam. Outros olhavam curiosos. Ele perguntava: "alguém se habilita a comê-lo?". E logo mais: "alguém se habilita a comê-la?". Os mais frescos faziam vômito. Aquilo estava para o horror. A qualquer momento as coisas poderiam perder o controle. Parecia ser o que esperava Abrakadov.

No frenesi, o professor levantou novamente aos céus a goiaba na frente da turma, em silêncio. Todos esperavam apreendidos. Ele passou a goiaba embicheirada da mão direita trêmula para a mão esquerda firme.

Silêncio.

Os alunos prenderam a respiração.

Conheciam o professor.

Não tardou muito tempo para um observador externo, ele levou a goiaba à boca e mordeu o bicho.

Um aluno golfou ao fundo da sala.

Abrakadov mastigou quatro vezes. Ninguém ouviu, mas todos puderam ouvir o corpinho mole do bichinho branco sendo esmagado - ploft! - por seus dentes trêmulos. Depois, sem voltar-se para o aluno que limpava a boca do vômito ao fundo da sala, continuou:

- A água da goiaba é vida. O bicho era vida. A sua goiaba, seu alimento, sua vida, estava preservada por sua luta, por sua presença. A água e todo bem só pode ser protegido pela luta e pela presença. Ninguém se habilitava a comê-la, a explorá-la, enquanto o bicho estava lá. Ao contrário, a existência do bicho retirou-lhes inclusive o ar, causou-lhes náuseas. É forte sendo fraco, porque está presente. E a única morte que lhe foi possível tornou-o memorável. Ele estava condenado a viver sua vida no lixo, uma vida de fartura para o bicho que era, ou morrer lutando pela goiaba. E quem fora capaz de arrancar-lhe a vida? Alguém que não está submetido às ordens, à estética do belo, à estética do saboroso. Há o ser vivo. Há o ser memorável. E no meio dos dois não há nada mais. Há o estar presente. Há o não seguir regras. No meio dos dois, só ausência.

Os alunos não se contentaram. Levantaram-se e puseram-se para fora da sala. Apenas alguns ficaram para acudir o de estômago fraco.


***

Dia seguinte, Abrakadov ainda virava a esquina rumo à escola quando já ouvia os brados incessantes vindos de dentro dos muros da fortaleza. Não tinha certeza do que ouvia no conteúdo: "Bicho mole em dente duro tanto morde até que... murcha?" Não era plausível que os alunos tivessem se dado ao trabalho de um trabalho tão porco!

Entrando pelas grades da porta da frente, via o conjunto pululento de alunos enraivecidos sentindo-se ferozes. No mesmo instante, os alunos o viram naquele fatídico dia 20 de novembro. A perna torta à direita já o facilitou virar de lado e tomar outro rumo. Mas impediu de correr muito rápido. Os alunos tomaram-no pela traseira. Elevaram-no ao alto nos braços em meios aos brados na frente da escola. Estava feito! Os alunos entenderam tudo o que a escola os dissera: eram os trucidadores de bichinhos brancos, moles. Tinham que ser como o professor Abrakadov. Naturalizar a estética da brutalidade, morder para matar o que quer que seja. Abrakadov estava desolado nessa hora!

Estavam presentes, eram lutadores. Pelo quê? Pela trucidação dos bichinhos brancos moles. Pela trucidação dos outros presentes, lutadores. Entenderam ou não entenderam? Virou na esquina um ônibus branco. Levava faixas pelo dia da consciência. Os alunos se exaltaram mais! Era a hora.

Todos se envolveram na contenda. Os profissionais registradores que trabalharam robóticos pregaram as bochechas gordas nos vidros dos escritórios dentro da coordenação pedagógica para olhar o que se passaria. Há apenas relatos, mais ou menos fidedignos, apesar de ser impossível julgar a fidedignidade de qualquer relato meramente pelo coerentismo dele em relação a outros relatos, o que validaria uma teoria da conspiração, mas parece coincidente que os alunos foram em peso com pedras e paralelepípedos na mão contra o ônibus. Em outras mãos de outros alunos ia Abrakadov, torto, tentando desvencilhar-se. Entraram em confronto. O ônibus estava lotado de manifestantes. Os alunos pararam antes de lançar a primeira pedra: eram negros.

Abrakadov foi posto no chão. Os alunos olharam para ele, esperando um momento de filosofia. Em vão. Abrakadov abaixou a cabeça como uma Mula que era e ficou parado. Os alunos-alazões não eram nada em grupo. O ônibus desviou um pouco à direita (os alunos ocupavam uma parte da rua, mas não toda) e seguiu seu rumo à manifestação da consciência sem maiores problemas. Os alunos retiraram-se para dentro, sem se bradar e sem se dar o menor pio. Eram, enfim, frangos: silenciosos, assustados. Não corriam, nem eram os primeiros. Eram uns todos.

Abrakadov estava do lado de fora e acompanhou toda a cena. Nunca mais entrou para dentro das grades da escola. Seus registros continuaram infrequentes, agora com razão.

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