O Casório é o Diabo: uma leitura do matrimônio em

As Velhas são o diabo

, de João de Araújo Correia



Rafael Muller, 24 ago. 2021


O presente squib tem por objetivo a análise temática do matrimônio em As Velhas são o diabo, de João de Araújo Correia, considerando questões teóricas em torno da temática e o posicionamento implícito marcado pelo narrador do conto quando da descrição dos comportamentos de Aninhas, esposa do protagonista na história.

Em linhas gerais, o conto As Velhas são o diabo narra fatos associados ao casamento de Frederico, um jovem comerciante (feirão), "rapaz doente e pobre" (CORREIA, 1984, p.44), com Aninhas, uma senhora de mais de cinquenta anos possuidora de uma bela casa com quintal, regalia que mais lhe interessara no matrimônio. Com o casamento, inicia-se um ciclo de prosperidade material para Frederico, que se reproduz em "bens comprados ao redor da casa - hoje uma leira, amanhã uma vinha, depois uma mata" (CORREIA, 1984, p.45). Apesar disso, na vida marital, Aninhas se mostra uma mulher ciumenta e Frederico adúltero, ao que os conflitos se avolumam, chegando à violência familiar deste contra ela. O conto se encerra com o fim do ciclo de prosperidade da casa e com a derradeira atitude de Aninhas de apunhalar uma identificada amante de seu marido, indo presa. Na prisão, ao receber a visita do marido, escarra-lhe na cara e é cunhada louca.

Em que pese o título do referido conto fazer remissão à questão da idade (As Velhas...), ganha posição de centralidade no enredo a questão matrimonial e da propriedade: das posses de bens econômicos e da posse do outro. Reluz nos meandros do conto a existência de uma questão cultural em torno do casamento: a sua obrigatoriedade, com clara separação de papeis entre homem e mulher. Para o primeiro-homem, as posses, o dote, a superação da pobreza e, por conseguinte, a realização material que dignifica o homem. No espaço cultural, digno apenas é o rico e à riqueza associa-se o matrimônio. Doutro lado, para a segunda-mulher, é resguardado o lugar de subalterna, cuja função - dar filhos ao marido e cuidar a ele e aos filhos - vê-se parcialmente frustrada em Aninhas, que já não pode ser mãe.

Quando a mulher reconhece-se frustrada em sua função precípua dada culturalmente, torna-se ciumenta, possessiva ou "louca", nos dizeres do protagonista e do narrador, deixando de lado os cuidados com a casa, bem maior de interesse do marido. A relação degringola importantemente a partir desse ponto fulcral, o qual merece maior atenção analítica.

A "loucura" da mulher é sintomática. Como toda "loucura", configura um agir fora dos padrões esperados culturalmente e que se caracteriza por uma luta contra esses mesmos padrões impostos. No caso de Aninhas, revolta-se contra a sua posição naufragada de mulher-esposa imposta socialmente, uma vez que se reconhece meramente como "sócia" de seu marido. É desconstruída ideia do "amor conjugal" que a vinculava ao relacionamento, restando imposta uma nova condição à mulher: perdida em relação à posição-função que ocupa na relação. O padrão imposto - submeter-se ao marido - é subvertido: e ela passa a tornar-se ciumenta e suspeitar do marido como forma de submetê-lo a ela.

É nesse ponto em que o narrador da história demonstra-se profundamente vinculado à cultura e à perspectiva de Frederico: se a ideia do "amor conjugal" é desconstruída em Aninhas, ela não é desconstruída culturalmente. Veja-se: o casamento dos dois (evento particular) é taxado como malsucedido em decorrência de uma falha da mulher que, por ser velha, seria o diabo. Não é posta em causa a instituição do casamento em si, como uma relação culturalmente imposta e, portanto, autoritária perante a liberdade dos indivíduos. A alternativa - o amor livre - não aparece no texto. E é a partir tanto das revelações quanto das ocultações que percebemos o vínculo que cria o narrador com o protagonista-Frederico.

Aninhas é banida de todos os contextos: da sua condição de mulher-esposa no relacionamento, da sociedade quando se vê presa, e do próprio texto literário enquanto personagem quando taxada de "diabo". Esse banimento é, certa forma, premeditado: identificada por suas posses desde o início do texto, a mulher não seria detentora de quaisquer direitos. A história, portanto, não é assaz imprevisível: a própria "loucura" é esperada, na medida em que a mulher é colocada em posição insustentável e desta posição nada mais se poderia esperar que não a "loucura".

Pelo exposto, percebe-se que o matrimônio, posto como posto (segundo a cultura inferida dos posicionamentos e juízos de valor do narrador), é uma instituição autocrática em que as liberdades individuais são tolhidas. Nesse ínterim, está fadada, portanto, ao fracasso do ponto de vista da autorrealização. A responsabilidade não deveria recair sobre a figura de qualquer dos indivíduos envolvido na relação, quanto menos da mulher [idosa]. O diabo, nessa perspectiva, é o próprio casório.


Referência



CORREIA, João de Araújo. As velhas são o diabo. In: SALEMA, Álvaro. Antologia do Conto Português Contemporâneo. Lisboa: Ministério da Educação, 1984, p.44-49. Disponível em: <https://ceportugues.files.wordpress.com/2010/02/antologiaconto3.pdf>. Acesso em 15 jul. 2020.


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